Vila Velha (ES) – Sob a luz da Páscoa e envolto pela beleza do alto do Convento da Penha, teve início neste Domingo da Ressurreição, 5 de abril, a Festa da Penha 2026, uma das mais antigas e expressivas manifestações de fé do Brasil. Entre cantos, orações e o olhar voltado para o Cristo Ressuscitado, milhares de fiéis se reuniram para dar início ao Oitavário em honra à Mãe das Alegrias, título que brota da devoção do povo e traduz a presença materna de Maria na vida dos capixabas.
Como há séculos, desde os passos missionários de Frei Pedro Palácios, a montanha sagrada voltou a se tornar lugar de encontro, memória e esperança. Em meio ao céu aberto e ao cenário que mistura fé e natureza, a programação do oitavário se desenha a partir da espiritualidade franciscana, unindo o momento devocional e a celebração eucarística em um único caminho: conduzir os corações, com Maria, ao mistério da Ressurreição.
A Celebração de Abertura foi presidida por frei Daniel Dellandrea, Definidor e representante do Ministro Provincial, e marcou o início de uma das maiores manifestações de fé do Brasil, profundamente enraizada na espiritualidade franciscana e na devoção a Nossa Senhora das Alegrias.
Em sintonia com o tema deste ano, “Fazei de nós instrumentos da paz”, e com a motivação do primeiro dia do Oitavário, “Onde houver desespero, que eu leve a esperança”, a Celebração Eucarística conduziu os devotos a uma experiência intensa de fé, renovação e compromisso com o Evangelho.
Logo no início da homilia, frei Daniel proclamou com força a centralidade da Páscoa. “Cristo vive e o nosso coração se enche de esperança”, afirmou, recordando que a Ressurreição é a base da fé cristã e a fonte da alegria celebrada naquele dia. Ele destacou ainda que a festa dedicada a Nossa Senhora da Penha está profundamente ligada à vitória de Cristo, pois Maria é a Mãe que se alegra com o Filho ressuscitado e conduz os fiéis ao encontro com Ele.
Ao aprofundar o tema do dia, o religioso destacou que o túmulo vazio é o maior sinal de que Deus não abandona a humanidade. “Quando tudo parecia perdido, Deus pronuncia a última palavra, e essa palavra é vida, é esperança”, disse, ao refletir sobre o Evangelho. Ele explicou que a experiência dos discípulos, que passaram do desespero à fé, deve inspirar também os cristãos de hoje.
Frei Daniel apontou ainda dois caminhos fundamentais para a vivência da fé pascal: a missão e a transformação da vida. “Quem tem no coração esta verdade da fé não se esconde. Quer compartilhar essa alegria com outros corações ainda desesperados”, afirmou. E completou: “Ressuscitar com Cristo é reordenar a vida a partir dos valores do Reino, como a justiça, a misericórdia, o perdão e a paz”.
Ao trazer a reflexão para a realidade atual, o frei foi direto. “Talvez o maior desafio hoje seja justamente este: ser sinal de esperança em um mundo chagado pelo desespero”, disse. Ele recordou as dores do mundo contemporâneo e insistiu que a resposta cristã deve ser concreta, vivida no cotidiano. “O tema que meditamos hoje não é um slogan. É uma missão pascal”, reforçou.
Ao final, confiou à intercessão de Nossa Senhora o caminho da festa. “Com humildade queremos pedir: fazei de nós instrumentos da paz”, concluiu.
COROA FRANCISCANA DAS SETE ALEGRIAS DE NOSSA SENHORA
Antes da Santa Missa, a tarde já havia sido marcada por intensos momentos de espiritualidade franciscana, que prepararam o coração dos romeiros para a celebração principal. A programação teve início com a oração da Coroa Franciscana das Sete Alegrias de Nossa Senhora, tradição que recorda, à luz da Páscoa, as alegrias vividas por Maria, especialmente ao contemplar o Filho ressuscitado.
Em seguida, aconteceu a abertura do Oitavário, com acolhida conduzida pelo guardião do convento, frei Gabriel Dellandrea, e a participação de frei Felipe Medeiros Carretta. Em clima de alegria e fraternidade, os frades proclamaram o início da Festa da Penha 2026, acolhendo os milhares de devotos presentes.
Um dos momentos mais marcantes foi a chegada da imagem de Nossa Senhora da Penha ao Campinho. Recebida com cantos, aplausos e vivas, a imagem emocionou os fiéis e recordou a tradição iniciada por Frei Pedro Palácios, que há séculos instituiu essa manifestação de fé no Espírito Santo.
Durante o momento devocional do oitavário, frei Gabriel conduziu a reflexão, destacando o sentido pascal da festa e sua ligação com a vida concreta dos fiéis. Em um dos trechos mais significativos, afirmou:
“A ressurreição do Senhor é uma pílula de esperança para nós, porque no desespero encontramos a esperança, a fé. Jesus passou pelo mundo fazendo o bem. Tomara que no dia que nós estivermos partindo dessa para melhor, alguém diga, ao menos um, diga sobre nós: esse passou pelo mundo fazendo o bem”.
O guardião também provocou os fiéis a refletirem sobre a própria missão. “Cada um entrega aquilo que tem. Se os outros não têm coisa boa para entregar, esse é um problema deles. Eu vou entregar o bem, porque eu sou seguidor de Jesus”, disse, incentivando uma vivência concreta do Evangelho no dia a dia.
Ao final de sua reflexão, frei Gabriel utilizou uma imagem simples e profunda para falar da esperança cristã. “O Senhor chegará para nós e dirá: levanta, sai daí. Eu não te fiz para a morte, eu te fiz para a eternidade. A morte é uma vírgula e a ressurreição é o ponto final”, afirmou, arrancando a atenção e a emoção dos presentes.
Outro momento forte do primeiro dia foi a bênção das chaves, dentro da tradição franciscana de abençoar objetos ligados à vida cotidiana. Os fiéis ergueram as chaves de suas casas, carros e locais de trabalho, enquanto os frades rezavam pela proteção dos lares.
“A sua casa é o espaço do refúgio de paz, do refúgio de fé e do refúgio de esperança”, recordou frei Gabriel, convidando todos a confiarem suas vidas à intercessão de Nossa Senhora.
A abertura da festa também foi acompanhada ao vivo por milhares de pessoas por meio da TV, rádio e internet. Durante a transmissão da TV Celinauta, frei Augusto Luiz Gabriel trouxe impressões do início das celebrações e conversou com participantes da festa.
“A festa da Penha já começou. Nós acabamos de rezar a coroa franciscana, também acabamos de refletir a partir do primeiro dia do Oitavário desta festa, que tem como tema fazei de nós instrumentos da vossa paz”, destacou o frade, diretamente do Convento da Penha.
Ao entrevistar frei Daniel antes da missa, o presidente da celebração afirmou: “Para mim é uma alegria especial. Há muito tempo desejava estar aqui e conhecer a festa. E esse ano tive esta graça, esta oportunidade”.
Durante a transmissão, também foram ouvidos fiéis presentes no Campinho. Um dos voluntários, Andreia, destacou a força da devoção popular. “Este lugar é uma festa de pura fé. A devoção do capixaba à Nossa Senhora é algo emocionante. Quem puder vir, venha, porque é uma festa de muito amor, carinho e alegria”, disse.
Assim, entre oração, acolhida, devoção e celebração, o primeiro dia da Festa da Penha 2026 foi marcado por uma profunda unidade entre fé e vida. Da Coroa Franciscana ao oitavário, e deste à celebração eucarística, cada momento conduziu os fiéis a um encontro com Cristo Ressuscitado, sob o olhar materno de Nossa Senhora da Penha.
A programação do dia seguiu com a Romaria dos Cavaleiros e, à noite, com o acendimento da imagem iluminada de Nossa Senhora da Penha, na Praia da Costa, reforçando as expressões de fé e cultura que marcam a festa.
“Acender a imagem iluminada é uma forma de também acendermos a luz da fé em nossos corações. Toda vez que passarmos diante desta imagem, nem sempre teremos muito tempo para contemplá-la, mas aproveite, e reze uma Ave Maria”, pediu o guardião do Convento.
Realizada desde o século XVI, a Festa da Penha permanece como um dos maiores testemunhos da fé do povo capixaba. Em 2026, iluminada pela espiritualidade de São Francisco de Assis, cuja Páscoa completa 800 anos, a festa convida cada fiel a assumir uma missão concreta: levar esperança onde houver desespero e ser instrumento da paz no mundo.